Separar vida pessoal e vida profissional virou quase um mantra corporativo. “Aqui é trabalho, não é sobre fazer amigos.” Só que os dados mais recentes mostram o oposto. Amizade no trabalho não é distração. É um dos fatores mais ligados a engajamento, retenção e até segurança no ambiente profissional.
E o momento não podia ser mais oportuno para falar sobre isso. Vivemos uma epidemia silenciosa de solidão, inclusive dentro das empresas.
O tamanho do problema
Segundo o relatório State of the Global Workplace 2024 da Gallup, um em cada cinco funcionários no mundo relata sentir solidão no trabalho, todos os dias. O dado varia conforme o modelo de trabalho. Entre quem atua totalmente remoto, a solidão chega a 25%. No modelo híbrido, fica em 21%. Já entre quem trabalha presencialmente, o número cai para 16%.
A faixa etária também pesa. Profissionais com menos de 35 anos relatam mais solidão do que os mais velhos, o que contraria a ideia de que geração mais jovem lida melhor com isso.
O contraponto positivo vem de outra pesquisa da Gallup: quem tem um “melhor amigo” no trabalho é sete vezes mais engajado do que quem não tem. Esse vínculo também aparece ligado a produtividade, segurança no trabalho e intenção de permanecer na empresa.
O Brasil não fica de fora dessa conversa
O tema ganhou força por aqui também. Uma pesquisa da KPMG com mil profissionais, divulgada no fim de 2024, mostra que amizades no trabalho impactam diretamente satisfação e bem-estar. Renata Rivetti, CEO da Reconnect Happiness at Work, reforça que conexões humanas são chave tanto para a felicidade quanto para o desempenho dos negócios, e destaca que o tema esteve presente em vários painéis do SXSW 2025.
O momento é sensível. Em 2024, o Brasil registrou o maior número de afastamentos por transtornos mentais em dez anos, quase 472 mil licenças concedidas, um salto de aproximadamente 67% em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ou seja, cuidar das relações no trabalho deixou de ser “mimimi” e virou pauta estratégica de saúde ocupacional.
Por que isso interessa ao negócio, não só às pessoas
Um levantamento recente da KPMG (Friends at Work Report 2025) escancarou o tamanho do valor que os profissionais dão a essas relações. Boa parte dos entrevistados trocaria até 20% do salário pela chance de trabalhar perto de amigos próximos. Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que a solidão no trabalho quase dobrou em um ano, o que evidencia como o tema segue urgente mesmo com todo o discurso sobre bem-estar corporativo.
Sandy Torchia, vice-presidente de talentos e cultura da KPMG nos Estados Unidos, resume bem o momento: empresas que ignoram a importância das amizades no trabalho estão deixando de lado um fator central de engajamento, justamente na hora em que a incerteza econômica e a IA já mexem tanto com a segurança dos times.
Nem tudo são flores
Vale um parênteses honesto aqui. Uma revisão sistemática publicada na REAd, Revista Eletrônica de Administração, mapeou tanto os benefícios quanto os desafios da amizade no ambiente de trabalho. Entre os riscos apontados estão favoritismo, conflitos de interesse e dificuldade em separar decisões profissionais de laços pessoais, especialmente em relações entre líderes e liderados.
Isso não invalida o valor da amizade no trabalho. Só reforça que o papel do RH não é forçar vínculos, e sim criar as condições certas para que eles nasçam de forma saudável, sem virar terreno para injustiça ou exclusão de quem fica de fora do “grupinho”.
O que o RH pode fazer de verdade
Espaço e tempo. Reuniões que sobram tempo para nada além da pauta não deixam espaço para conexão genuína. Pequenos momentos informais fazem diferença, mesmo em times remotos ou híbridos.
Onboarding pensado para conexão, não só para processo. Os primeiros meses definem se a pessoa nova vai se sentir parte do time ou só mais uma peça na engrenagem.
Lideranças que modelam o comportamento. Gestores que constroem relações genuínas com o time, dentro de limites saudáveis, abrem espaço para que isso se espalhe pela equipe.
Atenção a quem trabalha mais isolado. Remoto, híbrido, ou simplesmente introvertido, essas pessoas não devem ficar de fora das iniciativas de conexão só porque não aparecem no corredor.
A conversa sobre amizade no trabalho não é sobre transformar a empresa em uma grande família, isso, aliás, costuma sair caro para todo mundo. É sobre reconhecer que conexão humana real é um dos ativos mais subestimados de qualquer organização. E os números, tanto lá fora quanto aqui no Brasil, deixam isso cada vez mais difícil de ignorar.